
Ano passado, afirmei que 2024 foi, à exemplo de 1968, um ano que não terminou, dada a quantidade de pontas soltas que ficaram pendentes de solução. 2025, pelo contrário, podemos dizer que foi um ano concluído. E terminou bem.
De fato, muitas das questões que ficaram em aberto no ano passado tiveram um final feliz nesse ano que se encerra. Dentre elas, podemos começar pelos desafios que 2024 reservou ao governo Lula. Se até meados do ano as nuvens no horizonte ainda anunciavam tempestades, os últimos meses representaram uma lufada de bons ventos para o governo.
E nada contribuiu mais para isso do que a própria direita, começando pelo tarifaço imposto por Trump, com participação decisiva do bolsonarismo, mas que, no final das contas, se transformou numa vitória retumbante de Lula.
E aí o mérito é todo nele. Ao se manter firme na defesa da soberania nacional e resistir às tentativas de interferência de Trump, Lula saiu por cima na guerra de narrativas e acabou por dobrar o próprio presidente norte-americano, que sucumbiu não só ao “charme” de Lula, mas também à própria força da economia e das instituições brasileiras.
E aí não podemos deixar de falar em Alexandre de Moraes. Alvo principal da sanha extremista da direita brasileira, devido ao seu papel no julgamento da tentativa de golpe, Moraes é mais um vitorioso de 2025, tendo conseguido não só se livrar da infame lei Magnitsky, com participação decisiva de Lula, como também se consagrando como o grande nome da Suprema Corte brasileira na defesa de sua independência.
O que, no entanto, não significa que Xandão, como passou a ser conhecido, tenha saído imaculado desse ano que termina com graves suspeitas contra ele e outros membros do STF na crise do banco Master, caso que certamente ainda trará muitos desdobramentos, constituindo provavelmente a maior ponta solta deixada esse ano.
O excesso de personalismo em cima do nome do Alexandre de Moraes como representante do STF, bem como alguns arroubos de autoritarismo de sua parte na condução dos processos envolvendo a trama golpista, também encerram o ano inspirando preocupações. Estamos acostumados a apostar em heróis (vide Moro), o que sempre se revela um erro, notadamente quando envolve aquele que deveria ser o mais impessoal dos poderes da República, o Poder Judiciário.
Com efeito, é bastante preocupante que o Judiciário, encampado na figura de um Ministro como Alexandre de Moraes, seja alçado à condição de salvador da pátria. Para além do populismo cego implícito nessa postura, há sempre aí o risco de o tiro sair pela culatra, escambando para o autoritarismo e para o conflito institucional, com prejuízos à nossa frágil democracia e até mesmo para a governabilidade, o que não deixa de dar uma pequena dose de razão à narrativa bolsonarista, risco que se hoje atinge o bolsonarismo, amanhã pode atingir o próprio Lula, como também se deu no passado.
Por outro lado, o fato é que muito mais do que pretender nos proteger do autoritarismo (o que revela uma contradição absoluta com sua própria história e discurso), a retórica da extrema direita brasileira aposta mesmo é na impunidade para se reabilitar em 2026, estratégia que praticamente foi por água abaixo em 2025, apesar da insistência de alguns congressistas.
Bolsonaro e outras lideranças golpistas estão presos. Representando um marco em nossa história, vimos membros da cúpula militar sendo colocada atrás das grades (com destaque para o facínora Augusto Heleno), o que sem dúvidas torna 2025 um dos anos mais importantes para pormos à limpo nosso passado ditatorial.
É inegável, portanto, que o bolsonarismo termina 2025 muito pior do que começou, derrotado e rachado (com o perdão do trocadilho…). Bolsonaro finalmente começa a pagar pelos muitos crimes que cometeu e a escolha do seu filho Flávio como candidato à presidência em 2026 é mais um presente que Lula ganhou esse ano.
O que, todavia, não significa que 2026 será um mar de rosas para o atual presidente. Ainda titubeando em sua popularidade, Lula terá pela frente inúmeros desafios até as eleições de outubro, notadamente em sua relação com o Congresso.
Eis aí mais um personagem vitorioso de 2025, o famoso “centrão”. Apesar da resistência que, inclusive, voltou às ruas em manifestações memoráveis, nosso Congresso segue firme em sua sanha reacionária, hoje personalizada na figura do líder da Câmara, Hugo Motta, outro nome que tem muito a comemorar em 2025, para desgraça de todos nós.
Isto porque aquele já corretamente chamado de pior Congresso da história permanece tendo o poder político em suas mãos para colocar as cartas na mesa em 2026. Em que pese diversas conquistas de relevo (isenção do imposto de renda, reforma tributária, etc.), o governo Lula segue refém do predomínio direitista no Legislativo, problemática que promete se acentuar até as eleições, principalmente em temas como orçamento, reforma administrativa e segurança pública.
Bolsonaro está descartado, o bolsonarismo perdeu muito do seu poder, mas a direita segue viva, firme, forte e preparada para seguir apostando na sua narrativa para angariar apoio em 2026. Políticos da bancada BBB (boi, bíblia e bala) continuarão tentando dar as cartas do debate político e figuras do naipe de Nikolas Ferreira seguirão em evidência, mais fortes do que nunca.
Apesar de tudo isso, porém, reitero que 2025 foi um ano vitorioso e que deixa boas esperanças para o ano que se inicia. Tivemos avanços consideráveis na economia e na questão social, terminando 2025 com números expressíveis de emprego e renda, além de conquistas relevantes na área ambiental, no combate à miséria, à desigualdade social, etc.
Também tivemos, repita-se, o retorno dos movimentos de esquerda às ruas, o que poderá ser fundamental em outros temas que estarão no centro do debate em ano eleitoral, como na luta pelo fim da escala 6×1 e pelos direitos das mulheres, especialmente contra a violência doméstica.
Se esses movimentos conseguirão prevalecer em face do reacionarismo do Congresso é que são elas. Assim como há fundadas dúvidas se os ventos continuarão soprando a favor do governo nos próximos meses, principalmente diante do conturbado cenário internacional, que promete fortes emoções nesse ano que se inicia.
Eis o grande desafio para a esquerda em 2026: conseguir aproveitar o clima favorável, manter-se firme em suas pautas progressistas contra as forças do atraso e, principalmente, vencê-las nas próximas eleições, o que talvez não será difícil no âmbito do Executivo, mas que será uma duríssima batalha no Legislativo.
Sim, apesar dos pesares 2025 foi um grande ano. Mais difícil será repetir a dose em 2026. Que a esperança equilibrista consiga se manter de pé.
